Desde
o ano de 2007 quando me dou conta do dia de hoje, meus pensamentos logo se
voltam para você e não conseguem parar. Só pelo fato de ser um dia antes da sua
dolorosa partida. Sempre quis te escrever algo e embora tenha palavras, nunca
soube por onde começar e pequei por deixar o tempo correr. Ao ficar parada
olhando sua foto só consigo sentir saudades. E mesmo com tantas palavras ainda
continuo sem saber. Durante
todo esse tempo, eu tive um medo que me perseguia sempre que pegava um lápis e
pensava em falar de você. Durante todo esse tempo sempre tive medo de
esquecê-lo. Um medo bobo, eu sei. Mas um medo.
Medo
de que as lembranças ficassem perdidas no ar e não voltassem para mim. Medo de
não escrever algo tão significativo quanto o que você era para nós. Pois não
existe palavras no mundo que dará sentido a falta que nos faz. Nada, nunca,
jamais conseguiremos explicar e, eu tive medo. Medo de que a minha memória falhasse e eu me culpasse por isso. Mas não posso
pensar assim. De qualquer forma sempre vou tê-lo dentro de mim. É normal que de
vez em quando ela falhe ou bloqueie algo, não é culpa minha por isso, eu juro!
Eu
não era tão criança assim e por isso – só por causa disso – me desespero por
escrever. Sei que já passamos por muitos momentos juntos, afinal, você é meu
avô. O meu querido e amado avô. Mas hoje, confesso que não são tão nítidas
todas as lembranças. Eu queria um filme na minha cabeça que contasse apenas de
você. Porém tenho que me contentar com as fotografias e histórias de família
que, vez ou outra, o mencionam. É que ainda dói a sua partida, vô e é uma
sensação triste - mas ao mesmo tempo feliz – falar de você. A voz embarga,
sabe?
Queria
que todos os meus amigos tivessem te conhecido e vissem o homem maravilhoso que
era. Como eu me sentia – no sentido de me achar mesmo – quando me buscava na
explicadora. Ficava toda sorridente ao olhar para o portão e ver seu rostinho
ali, esperando-me. Embora não fosse tão longe de casa, era prazeroso andar aqueles cinco minutinhos ao seu lado. Gostava quando andávamos devagar, pois
logo suas pernas cansavam e tínhamos que descansar pelo caminho.
Lembro
que odiava tirar fotos. Ainda bem que eu sempre gostei tanto, pois são através
delas que te tenho comigo. Achava graça, as vezes até reclamava, mas sempre saía
nelas – com cara de assustado, falando, mas estava ali. Sempre esteve
nos momentos mais legais da minha vida e como eu queria que ainda estivesse.
Fisicamente, é claro! Porque sei que de alma não nos larga nunca, nos dá força.
Sabia
que de todos os aniversários que tive e de todos os outros que eu venha ter,
nenhum deles irá se comparar aos meus 15 anos? Homenagear você foi a melhor
coisa e a mais emocionante - choro toda vez que assisto ao DVD da festa. Como
torci para que estivesse presente e lembro claramente das palavras que
pronunciei ao meu pai nesse momento, segundo antes de me desmanchar em
lágrimas. Ouvia a homenagem atenta, balbuciei e finalmente disse: “Meu avô nem
está aqui, pai.”
Meu coração em seguida se acalmou com a resposta dada pelo meu pai ao abraçar
meu tio Zé – seu irmão e a mim: “Ele está aqui sim. Ele está aqui, ouviu?” E
apontava o indicador para o chão. Creio que todos aqueles que conheciam a
família se emocionaram também. E fiquei feliz, de repente, por ter toda a minha
família ali naquele dia tão especial para mim.
Encontro-me
com 19 anos agora e daqui a pouco menos de 4 meses faço 20 anos, duas décadas.
Vejo a foto da comunhão que não sai da minha escrivaninha e mais uma vez, o
senhor também estava lá, dois meses antes de nos deixar. Lembro de pouca coisa nesse período em que
esteve internado. Lembro que minha mãe vivia indo e vindo, assim como minha avó
e minhas tias. Minha mãe sempre a mais preocupada e a que deveria carregar
“família” em seu sobrenome. Lembro de quando o visitei e o senhor estava,
aparentemente, bem naquele dia. Usava uma fralda gigante por causa dos “xixis”
que precisavam sair de dentro de ti – sinto que se envergonhou por isso. Mas
não precisava nem ligar, eu não liguei, bobinho.
Também
me lembro da sua fala ao me dizer: “É, Natália, vai demorar um pouco para eu
dar aqueles teus cinco reais quando recebo. Como é que vou buscar?”. E sorriu
para mim. Pude apenas responder: “Ih, vô! Depois o senhor me dá, vai ter tempo
para isso!” Infelizmente, não teve. Infelizmente! Estava cagando para o
dinheiro. Entre a mesadinha que dava para os netos e encontrá-lo 100% saudável,
é óbvia a minha escolha: infinitos porcentos saudável!
Vire
e mexe me atraso de manhã. Já não tenho você para pedir que me acorde cedo
quando tenho algum compromisso ou só para que eu possa ver desenho animado
mesmo. Não consigo acordar com as galinhas como você, mas tenho o celular aqui
para me ajudar. Aprendi a gostar de leite como ninguém. Aprendi com o senhor
que bebia todo santo dia e não podia faltar uma caixinha na geladeira –
calcificava os ossos. Aprendi a pedir ao meu pai para consertar qualquer coisa
quando estivesse quebrada, já não tenho quem me salvava quanto a isso.
Sinto
falta do seu radinho pela manhã e no fim da tarde. Sinto falta de te ver com
seu passarinho – que continuou conosco. Do seu jeito doce e reclamão. De nos
chamar de “gaiatos” quando fazíamos alguma palhaçada. Em novembro do mesmo ano ganhei o computador
que eu tanto queria e não chegou a ver. Uns anos depois ganhou mais uma bisneta
e não chegou a conhecê-la, iria adorá-la, Mirella é uma princesa. Está prestes a ganhar
mais um bisneto agora também. Ganhei uma cadela levada e aposto que reclamaria dela como todos fazem, a Suzy não para. Completei meus 18 anos, estou
formada, passei na faculdade e não recebi um abraço seu. Sei que apesar de toda
essa distância que não podemos encurtá-la, estás a torcer por mim e feliz com as
minhas vitórias.
Eu
queria apagar a lembrança do dia 25 de julho de 2007 da minha cabeça. Mas se
para isso, apagasse também todas as outras as lembranças que tenho, prefiro
tê-la em minha mente. Pois não há nada que se iguale ao amor que tenho. Não há
dor nenhuma que valha mais do que o carinho, admiração e respeito que existe
dentro de mim. Vou continuar a olhar as fotos de quando eu era criança, dos
meus primeiros aniversários, das viagens a Saquarema. Naquele mesmo ano
passamos um feriado em família lá e nos divertimos à beça na praia. Aquele caixote quis
derrubar todo mundo, quase quis te levar de mim, mas não deixei. É uma pena que
não tenhamos rido meses depois como rimos desse episódio da onda.
Uma
doença te levou e jamais esquecerei o velório, o cemitério e o beijo em que eu
dei na sua testa já gélida. Perdoe-me, pois não pude impedir que te levassem.
Lamento pelo gosto salgado dos meus lábios, eram as lágrimas que escorriam.
Lamento por não ter dado um último adeus. Antes que a memória me traia, termino
lembrando do quanto eu te amo – para que não esqueça – e que para sempre o
amaremos. E se eu tivesse que provar tudo o que escrevi, diria apenas uma
coisa: “E na parede do meu quarto ainda
está o seu retrato[...]” Por inúmeras vezes, Tim Maia transmitiu tudo o que
eu tinha para dizer com uma única canção: Gostava
tanto de você. Dedico, então de cabo
a rabo para o senhor, seu Manoel, com a mais simples e sincera gratidão.
Natália Andrade