25 julho, 2013

Seu Manoel


Desde o ano de 2007 quando me dou conta do dia de hoje, meus pensamentos logo se voltam para você e não conseguem parar. Só pelo fato de ser um dia antes da sua dolorosa partida. Sempre quis te escrever algo e embora tenha palavras, nunca soube por onde começar e pequei por deixar o tempo correr. Ao ficar parada olhando sua foto só consigo sentir saudades. E mesmo com tantas palavras ainda continuo sem saber. Durante todo esse tempo, eu tive um medo que me perseguia sempre que pegava um lápis e pensava em falar de você. Durante todo esse tempo sempre tive medo de esquecê-lo. Um medo bobo, eu sei. Mas um medo.

Medo de que as lembranças ficassem perdidas no ar e não voltassem para mim. Medo de não escrever algo tão significativo quanto o que você era para nós. Pois não existe palavras no mundo que dará sentido a falta que nos faz. Nada, nunca, jamais conseguiremos explicar e, eu tive medo. Medo de que a minha memória falhasse e eu me culpasse por isso. Mas não posso pensar assim. De qualquer forma sempre vou tê-lo dentro de mim. É normal que de vez em quando ela falhe ou bloqueie algo, não é culpa minha por isso, eu juro!

Eu não era tão criança assim e por isso – só por causa disso – me desespero por escrever. Sei que já passamos por muitos momentos juntos, afinal, você é meu avô. O meu querido e amado avô. Mas hoje, confesso que não são tão nítidas todas as lembranças. Eu queria um filme na minha cabeça que contasse apenas de você. Porém tenho que me contentar com as fotografias e histórias de família que, vez ou outra, o mencionam. É que ainda dói a sua partida, vô e é uma sensação triste - mas ao mesmo tempo feliz – falar de você. A voz embarga, sabe?

Queria que todos os meus amigos tivessem te conhecido e vissem o homem maravilhoso que era. Como eu me sentia – no sentido de me achar mesmo – quando me buscava na explicadora. Ficava toda sorridente ao olhar para o portão e ver seu rostinho ali, esperando-me. Embora não fosse tão longe de casa, era prazeroso andar aqueles cinco minutinhos ao seu lado. Gostava quando andávamos devagar, pois logo suas pernas cansavam e tínhamos que descansar pelo caminho.

Lembro que odiava tirar fotos. Ainda bem que eu sempre gostei tanto, pois são através delas que te tenho comigo. Achava graça, as vezes até reclamava, mas sempre saía nelas – com cara de assustado, falando, mas estava ali. Sempre esteve nos momentos mais legais da minha vida e como eu queria que ainda estivesse. Fisicamente, é claro! Porque sei que de alma não nos larga nunca, nos dá força.

Sabia que de todos os aniversários que tive e de todos os outros que eu venha ter, nenhum deles irá se comparar aos meus 15 anos? Homenagear você foi a melhor coisa e a mais emocionante - choro toda vez que assisto ao DVD da festa. Como torci para que estivesse presente e lembro claramente das palavras que pronunciei ao meu pai nesse momento, segundo antes de me desmanchar em lágrimas. Ouvia a homenagem atenta, balbuciei e finalmente disse: “Meu avô nem está aqui, pai.”
Meu coração em seguida se acalmou com a resposta dada pelo meu pai ao abraçar meu tio Zé – seu irmão e a mim: “Ele está aqui sim. Ele está aqui, ouviu?” E apontava o indicador para o chão. Creio que todos aqueles que conheciam a família se emocionaram também. E fiquei feliz, de repente, por ter toda a minha família ali naquele dia tão especial para mim.

Encontro-me com 19 anos agora e daqui a pouco menos de 4 meses faço 20 anos, duas décadas. Vejo a foto da comunhão que não sai da minha escrivaninha e mais uma vez, o senhor também estava lá, dois meses antes de nos deixar.  Lembro de pouca coisa nesse período em que esteve internado. Lembro que minha mãe vivia indo e vindo, assim como minha avó e minhas tias. Minha mãe sempre a mais preocupada e a que deveria carregar “família” em seu sobrenome. Lembro de quando o visitei e o senhor estava, aparentemente, bem naquele dia. Usava uma fralda gigante por causa dos “xixis” que precisavam sair de dentro de ti – sinto que se envergonhou por isso. Mas não precisava nem ligar, eu não liguei, bobinho.

Também me lembro da sua fala ao me dizer: “É, Natália, vai demorar um pouco para eu dar aqueles teus cinco reais quando recebo. Como é que vou buscar?”. E sorriu para mim. Pude apenas responder: “Ih, vô! Depois o senhor me dá, vai ter tempo para isso!” Infelizmente, não teve. Infelizmente! Estava cagando para o dinheiro. Entre a mesadinha que dava para os netos e encontrá-lo 100% saudável, é óbvia a minha escolha: infinitos porcentos saudável!

Vire e mexe me atraso de manhã. Já não tenho você para pedir que me acorde cedo quando tenho algum compromisso ou só para que eu possa ver desenho animado mesmo. Não consigo acordar com as galinhas como você, mas tenho o celular aqui para me ajudar. Aprendi a gostar de leite como ninguém. Aprendi com o senhor que bebia todo santo dia e não podia faltar uma caixinha na geladeira – calcificava os ossos. Aprendi a pedir ao meu pai para consertar qualquer coisa quando estivesse quebrada, já não tenho quem me salvava quanto a isso.

Sinto falta do seu radinho pela manhã e no fim da tarde. Sinto falta de te ver com seu passarinho – que continuou conosco. Do seu jeito doce e reclamão. De nos chamar de “gaiatos” quando fazíamos alguma palhaçada.  Em novembro do mesmo ano ganhei o computador que eu tanto queria e não chegou a ver. Uns anos depois ganhou mais uma bisneta e não chegou a conhecê-la, iria adorá-la, Mirella é uma princesa. Está prestes a ganhar mais um bisneto agora também. Ganhei uma cadela levada e aposto que reclamaria dela como todos fazem, a Suzy não para. Completei meus 18 anos, estou formada, passei na faculdade e não recebi um abraço seu. Sei que apesar de toda essa distância que não podemos encurtá-la, estás a torcer por mim e feliz com as minhas vitórias.

Eu queria apagar a lembrança do dia 25 de julho de 2007 da minha cabeça. Mas se para isso, apagasse também todas as outras as lembranças que tenho, prefiro tê-la em minha mente. Pois não há nada que se iguale ao amor que tenho. Não há dor nenhuma que valha mais do que o carinho, admiração e respeito que existe dentro de mim. Vou continuar a olhar as fotos de quando eu era criança, dos meus primeiros aniversários, das viagens a Saquarema. Naquele mesmo ano passamos um feriado em família lá e nos divertimos à beça na praia. Aquele caixote quis derrubar todo mundo, quase quis te levar de mim, mas não deixei. É uma pena que não tenhamos rido meses depois como rimos desse episódio da onda.

Uma doença te levou e jamais esquecerei o velório, o cemitério e o beijo em que eu dei na sua testa já gélida. Perdoe-me, pois não pude impedir que te levassem. Lamento pelo gosto salgado dos meus lábios, eram as lágrimas que escorriam. Lamento por não ter dado um último adeus. Antes que a memória me traia, termino lembrando do quanto eu te amo – para que não esqueça – e que para sempre o amaremos. E se eu tivesse que provar tudo o que escrevi, diria apenas uma coisa: “E na parede do meu quarto ainda está o seu retrato[...]” Por inúmeras vezes, Tim Maia transmitiu tudo o que eu tinha para dizer com uma única canção: Gostava tanto de você.  Dedico, então de cabo a rabo para o senhor, seu Manoel, com a mais simples e sincera gratidão.

Natália Andrade

24 julho, 2013

Ainda te amo



Descobri que ainda te amo e talvez te ame para sempre, mas existe alguma coisa que eu não consigo entender.
Descobri que te odeio e que nessa mesma proporção o amor se manifesta, assim, sem dar explicações. Minha cabeça se confunde e nessa ela cria uma monte de interrogações que só o amor responde.
Descobri que eu não consigo mais me esconder. Nenhum esconderijo parece seguro o bastante. Nenhuma parede me tampa. Nenhuma cortina cobre os meus pés. Nenhuma porta tem uma chave no buraco da fechadura. Pelo contrário, ela já não se fecha e no momento, encontra-se aberta. O vento bate, a tempestade chega e ela continua ali. As horas passam, os minutos acompanham, os segundos correm e de longe, ainda vejo uma fresta. Talvez fechá-la fosse a solução – ou não. Pode ser que bloqueasse a passagem, mas logo encontrariam outros caminhos – existem tantos!
Descobri que me afastar é o que me aproxima de você e que me aproximar é o que me afasta, estranho não? Tudo pela contra-mão, sentido inverso, lado oposto. No fundo sempre foi assim, essas contrariedades. Quem sabe um dia, nesses caminhos tortos traçados na vida, encontremos respostas, a chave perdida e nossas linhas se cruzem.

 Natália Andrade

13 julho, 2013

Abraços


Entre tantas coisas que existem na vida, duas delas são essenciais ao meu ver. Assim como um copo d'água, um sorriso e um abraço não se nega a ninguém. Não há nada mais belo do que a naturalidade de um sorriso surgindo. Tem a capacidade de colorir o dia, não importa como. Não há nada mais gentil do que receber um afago, um abraço... Seja ele desejado ou inusitado. Abraço de urso, de irmão. Abraço de coração!
Dizem que ele vale mais do que mil palavras, não é mesmo? Vai ver, explica o fato de proteger, acalmar, confortar e trazer paz... Desconheço quem não se sinta seguro quando entrelaçado em alguém. Não há nada mais belo e gentil, não há nobreza maior do que abraçar o outro em forma de gratidão.
Um sorriso e um abraço, não, não se nega a ninguém!

Natália Andrade

08 julho, 2013

Surpreendentemente Humano


   Todas as manhãs, Luiz é acordado do jeito mais carinhoso e inocente que existe - ou não tão inocente assim. Ao escutar o rangido vagaroso da porta ele está ciente de que será empurrado com o focinho e coberto por lambidas que o faça despertar. A hora certa é decretada por Suzy - sua cadela de estimação - quando percebe que já amanheceu e está próximo do seu passeio diário. Luiz sabe que ela não sossega até que ele esteja de pé. Então, logo trata de levantar da cama e aconchegar-se ao sofá, tomando posse daqueles "cinco minutinhos" que é direito de todos. Suzy, por sua vez, segue atrás e deita aos seus pés, marcando território para não correr o risco de - por algum imprevisto - ser esquecida.
   Depois de mais alguns carinhos e de algumas latidas chamando sua atenção, ele já está de pé para começar seus afazeres e a preparar-se para mais um dia de trabalho. E nesse momento, fico confusa por não saber se a expectativa maior é nesse tempo de espera ou quando a coleira é avistada - de longe, de perto - em mãos. Dizem que essas preliminares são as piores. E não é que estão certos? O passeio, em si, não é um exercício TÃO difícil assim. Agora vai tentar a sorte de por a coleira de um modo sútil. É, boa sorte mesmo!
   Como se não bastasse essa euforia toda para sair, ela ainda trava perto da escada e só desce se for no colo. Quem vê assim até pensa: "Nossa, nunca vi tão firme." Bom, é mais ou menos por aí mesmo. Nem se quer saiu de casa e já está dando trabalho, quem dirá na rua. Porém, uma surpresa: a etapa mais trabalhosa passou. Não é preciso ser um atleta, super homem ou a mulher maravilha para encarar essa pecinha. Basta apenas ter um pouco de força, controle e paciência. Sem isso, ou você cai, solta a coleira ou vai se estressar. Porque ela age que nem criança pequena, quer correr destrambelhada pela rua afora e matar a curiosidade em cada passo dado. 
  E lá vão eles, perfeitos um para o outro. Já distantes, mas como se estivesse bem pertinho. Ainda ouço a alegria disfarçada em latidos. E quando chega, vem correndo com a língua de fora, bebe água e descansa, feito um anjo. E todos os dias o episódio repete-se. Assim, Luiz começa seu dia e eu também. Como se fosse sempre a primeira vez, mas nunca é!

- Natália Andrade

02 julho, 2013

Sábado de sol


Finalmente chega sábado e até então,  meu plano é curtir um belo dia de sol com as amigas. Chega sábado e eu levanto meio adormecida rumo ao banheiro para poder despertar. Finalmente chega sábado, arrumo as coisas e lá vou eu...
  Curtir o dia, me divertir, refrescar a mente, encher meu cabelo de areia, tomar milhões de caixotes e levantar pra ver o sol raiar. Sábado, Rio de Janeiro, um calor brabo e uma praia cheia a ponto de que você diga: "O Rio de Janeiro continua lindo!" 

  Em partes, ok? Porque se você esfregar os olhos e arregalá-los, não verás tanta beleza assim. É fácil pensarmos em nós mesmos, olhar as coisas como parecem. Difícil é agir como deveria, preocupar-se com o próximo, aceitar as coisas como são. Aí está a diferença!
  Enquanto eu curtia o meu dia animado, comendo, bebendo, rindo e mergulhando, havia um garotinho com menos da metade da minha idade vendendo biscoito debaixo daquele sol que eu mesma curtia.  Enquanto eu comia, bebia, ria e mergulhava, aquele mesmo garotinho caminhava pela praia, não por opção, mas por obrigação da vida. Até que chegou a um determinado momento em que seu corpo pediu "Stop" e ele sentou-se numa cadeira vazia que, provavelmente, eram de pessoas  que deveriam estar se divertindo, comendo, bebendo, rindo e mergulhando.
  Ao ouvir dizer que tinha um garotinho cansado e que estavam dando água para ele se hidratar, de imediato tia Dora levantou-se com refrigerante e biscoito e fez questão de ver como ele estava. Mas pela sua demora, decidi levantar e vê-lo também e foi então que, o tempo resolveu parar e eu só conseguia focar naquele pingo de gente sentado, cansado e aparentemente, fraco. Enquanto o sol brilhava para todos, a única coisa que brilhava para mim e tia Dora eram aqueles olhinhos ao comer e falar do mar. 7 anos e magrinho...
  Tia Dora disse que seu lugar era brincando e não ali trabalhando. E eu me perguntei porque ele não estava brincando no mar como qualquer outra criança dali. E percebi que a vida também é injusta e que o plano feito para a Terra deve ter sido dividido de maneira incorreta. Enquanto poucos tem muito, muitos tem pouco ou quase nada ou até mesmo nada.
  E foram naqueles 15 ou 20 minutos conversando com ele que eu ganhei o meu dia. Agradecendo à Deus por existir pessoas como a tia Dora que foi capaz de fazer a diferença, enquanto a praia inteira se divertia.
Depois de voltarmos aos nossos lugares e nos sentarmos, ele permaneceu onde estava, olhando o mar e eu fui escutar música, observando-o de longe. Alguns minutos se passaram e ele levantou-se com a garrafinha de dinheiro nas mãos, o saco enorme de biscoito nas costas e continuou a caminhar. Enquanto o via indo embora, o sol continuava a brilhar, mas só conseguia enxergar aquele sorriso banguelo com os lábios machucados, as costas queimadas de cigarro e aquele brilho nos olhos... e como brilhavam!


Natália Andrade

01 julho, 2013

Simplicidade



Não me importo o quanto pareça bobo aos olhos de muitos, mas para os meus foram o reflexo da simplicidade que se encontrava perdida. Simplicidade no seu menor ou senão, próprio sentido. Aquele que você lê, entende e basta! Aquele que você vai perceber no decorrer dessa crônica.
Todo mundo espera muito de um sábado à noite e, eu só esperava comemorar o aniversário do meu quase irmãozinho e comer meus poucos pedaços de pizza – como de costume. Até que, opa, ampliamos o programa e um "rolé" na Lapa cairia bem. E caiu mesmo, embora o final de semana tenha sido o tal do "enforcamento" de sete de setembro, ou seja, feriadão + final de semana = viagem e Lapa um pouco vazia.
A noite corria e a gente caminhava pelas redondezas. Vimos várias rodinhas pela rua, uma de sapateado, outra onde um rapaz conduzia uma bolinha pelos braços e não a deixava cair, o que de acordo com a Thaizinha: “tinha “mó” cara de quem trabalhava no circo." Pode ser, a simpatia batia de longe!
Enquanto isso, vários ritmos musicais ao fundo nesse trajeto, até que avistei uma roda mais divertida - e encantadora. Chapéuzinho de malandro, de boêmio, de sambista. Sim, uma roda de samba, eu diria. Já era de se esperar, né?
Nada mais encantador do que três senhores dando uma aula de gingado, três senhores dando um show com um samba na ponta do pé digno de parar, aplaudir e interagir. Nada mais encantador do que ver o senhor mais velho - ou pelo menos aparentava ser - dando uma reboladinha no meio da música e o respeito rondando em volta por essa 3ª idade. (Que graça!)
Eu via e sentia esse reflexo. Quando alguém ía embora, depressa outros chegavam e cada vez que olhava a roda já tinha crescido. Acredito que viram a simplicidade estampada na cara, no jeito, nos pés. Viram ela ganhando cor, ritmo, alegria e sendo transformada numa grande vontade de viver. Tiveram a mesma visão refletida em meus olhos que me fazia querer ficar ali pra sempre.
Porque a simplicidade nada mais é do que ser simples. E de tantas maneiras de explicar, achei digna da minha lembrança e do sorriso em meus roto. Deus queira que eu chegue até lá assim, cheia de graça e de vida.



-Natália Andrade