25 dezembro, 2015

A noite em que os hotéis estavam cheios



"O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
— E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? — disse o encarregado. — Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto — que era mais uma modesta hospedaria — havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
— O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
— Pois então — disse o dono da hospedaria — fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
— O disfarce está muito bom. Que disfarce? Perguntou o viajante. Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente. Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos. O gerente aí percebeu o engano:
— Sinto muito — desculpou-se. — Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a idéia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré."


Moacyr Scliar

31 julho, 2015

O CÉU NÃO É O LIMITE


Juro que um dia quero entender o que é que a Lua tem que me tranquiliza tanto... De verdade! É praticamente impossível olhar o céu e não sorrir. Será que só eu faço isso? Imagino que quem olha de longe e me ver sorrindo para o alto deve me achar maluca. No mínimo, pirada! E eu nem ligo, acredita? É a forma mais gentil de agradecer tamanha positividade que me é transmitida.
Sua luz se propaga no ar e habita em mim. E ilumina. E me ilumina. A alma e os pensamentos. Desculpem os físicos de plantão, caso alguma besteira seja dita. Li que a luz é uma onda eletromagnética que não necessita da presença de um gás para se propagar. Sorte a dela então, ser tão absoluta! Pena de mim que sou tão vulnerável! Mal sabe ela que a quilômetros de distância é um dos  meus combustíveis para viver. De paz. De amor. E de inspiração. É o gás de muita gente que não se cansa de fazer pedidos, baixinhos ou ainda só em pensamento. Basta fechar os olhos e pedir...
Ela supre ausências e saudades. E faz uma conexão com pessoas que nem imaginamos conhecer e que, provavelmente, não conheceremos mesmo. Porque em qualquer cantinho desse mundo, eu tenho a certeza de que outra alma estará admirando e sorrindo e fazendo pedidos e agradecendo pelo dom da vida. Tenho pena de quem não repara em sua existência... 
“O céu não é o limite”, ela me contou sorrindo. Eu sei, dei como resposta e sorri de volta.

Natália de Andrade

22 abril, 2015

Autorretrato



Quem se dispunha a entrar no caminho de uma louca? Quem estaria tão convicto em descobrir e a lidar com todos os defeitos? Sou calmaria e tempestade. Sou atenção e distração. Sou dedicada e enrolada. Sou ombro, colo, abraço amigo e braços abertos. Sou coração pulando e estômago embrulhando. Sou serenidade total e ansiedade também. Sou paz e amor até a tpm chegar. Sou uma tímida tagarela. Sou gentileza da cabeça aos pés. Sou fervorosa aos mínimos detalhes. Sou teimosa ao extremo. Tão animada quanto preguiçosa. Indecisa mais do que qualquer outra coisa. Sou pessoa de riso fácil e choro também, já dizia Tati Bernardi. Não acredita, né? Espere até me conhecer!


Natália de Andrade

13 abril, 2015

BEM ME QUER?


Não tem coisa pior na vida do que o mal disfarçado de bem. Aquele que você não enxerga. Não ouve. Não sente. Não percebe. Aquele que te estende a mão e ao mesmo tempo te puxa. Que te abraça e dá tapinhas nas costas como se apunhalasse por trás. Que não torce, não vibra e não comemora por você. Que não é fiel, leal e companheiro. Que não traz paz nem por um segundo quando está por perto. Sentimento bom é aquele que liberta a alma e não aprisiona, não pesa e você consegue carregar por onde quer que vá.

Natália de Andrade

23 março, 2015

TEMPO FECHADO



Que mania de olhar pro céu e procurar respostas... 
Como se as nuvens fossem formar palavras. Como se os pássaros fossem cantarolar conselhos. Como se o vento fosse sussurrar o que fazer. Tudo branco, tudo cinza. Dessa vez, olho pro céu e não vejo nada de extraordinário. Só uma névoazinha bem longe, ofuscando a minha visão e que a qualquer momento pode estar aqui, bem a frente do meu nariz. Eu sei que o tempo está fechado e que aqui dentro também, mas estou torcendo pro sol surgir e a peito se abrir!

Natália de Andrade

14 março, 2015

HOJE SÓ QUERO SER



Andei pensando em como tenho dificuldades em fechar ciclos. Colocar um ponto final. Um remate. Aquele The End na história... Às vezes o final nem foi feliz, pô! É sério, essa ideia de desapego me soa estranho. Embora seja tão necessário quanto dormir. E imagino que estejam pensando: "Nossa! Que péssima analogia!", mas acredite, o desapego nos traz noites maravilhosas de sono. Recuperamos aquelas horinhas perdidas quando não conseguimos dormir, por revirarmos e revirarmos na cama com o pensamento bem longe, sabe?

Uma reticência sempre me caiu bem...
Aquilo que ficou por dizer...
E que acabou pairando no ar...
Vírgulas que me ajudam a respirar em textos, a pensar na construção da próxima frase, a organizar pensamentos, a dispô-los no papel.
Esforço-me para que o ponto final seja usado corretamente. Afinal, é só encerrar frases, não é mesmo? Ainda que pela metade, desde que faça sentido para mim.

É muita bravura dar um basta e dizer que acabou. E ver que não existe mais nada. E que aquilo não voltará para a sua vida. E é com isso que você vai lutar todos os dias. Repetindo mil vezes que é para frente que se anda e que não pode e nem deve olhar para trás. É você versus você mesma. Lutando contra as suas próprias vontades, só para sair imune desses caminhos que só andam em círculos e te deixam tonta. Porque você sabe de cor e salteado para onde que ele vai te levar. E pensa que vai ser diferente, quando acaba tudo sempre igual. Exceto o tempo que também engana e finge parar na mesma medida em que dispara, corre, voa e quando a gente percebe nem se reconhece mais. Saio do papel para a realidade bem infinitiva, sem nenhuma conjugação. Já fui passado, presente e futuro. Hoje só quero ser (acompanhada ou não).

Natália de Andrade

25 fevereiro, 2015

PRIMEIRO DIA DE AULA



 Ansiedade. Nervosismo. Vergonha. As vezes até choro. Nada como essa mistura de sentimentos a cada ano letivo que inicia. Pude perceber nos últimos dias como os hábitos são comuns a professores e alunos. Digo isso por experiência própria, pois todos nós passamos por essa cena: de não saber o que nos espera no nosso dramático e esperado primeiro dia de aula. E olha que ela se repete inúmeras vezes, embora todas elas sejam diferentes.

 Fui uma mera observadora desta vez. Na última reunião com o diretor pedagógico do colégio onde trabalho, um dia antes de voltar as aulas, pude perceber o quanto professores se tornam alunos por alguns instantes. Sim, depois das férias merecidas é a hora do reencontro com os colegas de trabalho. Aquela confusão de vozes crescia gradativamente junto às risadas e as rodinhas que se formavam naquele espaço. Professores antigos enturmados, logo nota-se quem são os novatos da área: os que beiravam aos cantos. Não é assim que acontece conosco quando entramos num colégio novo ou quando retornamos das férias? 

 No dia seguinte, ainda como mera observadora, estava com a turminha que acompanhei ano passado como auxiliar (terei o prazer de acompanhá-los novamente) e qualquer semelhança, é mera coincidência. Todos quietinhos e atentos ao esperado dia até que se dá início aquela apresentação formal chata de sempre. Eu, particularmente, odiava e continuo odiando, morro de vergonha. Observo o olhar de cada um quando se apresentam e pela voz baixinha, vejo que sentem o mesmo e automaticamente, me vejo ali – como se eu não tivesse me apresentado formalmente para o resto da equipe de professores há um dia, mais uma vez, vergonha. 

 Depois as vozes ecoavam baixinhas pela sala e só pelo modo como sentaram, percebo os novos alunos - não estou dizendo que eu não conheça os rostos dos meus pimpolhos, mas quando estão juntinhos é sinal de que já se conhecem, isso é óbvio - e aqueles com o semblante envergonhado, sem graça, que tem boca, mas não fala, são os que a gente deve transmitir sorrisos o tempo inteiro para familiarizá-los e aconchegá-los. 

 Tudo exatamente igual! Quando entrei na escola pela primeira vez como aluna e para trabalhar. Quando retornava as aulas depois das férias até concluir o meu fundamental. Quando entrei num colégio novo para fazer o meu ensino médio. E a cada período novo que se inicia na faculdade... Nem eu sabia o que esperar e vivia ansiosa também. Vivo e sou! 

 De espectadora aos palcos ou as carteiras ou as lembranças, principalmente daquelas que marcam mais, como cair de pára-quedas num ambiente novo, os amigos de escola, o rostinho de cada professor gravado em nosso pensamento e nossas primeiras impressões de tudo até chegarmos à faculdade e percebermos que nada mudou. Enfim, professores retornando a seus papéis de alunos e estes, por sua vez, sendo alunos mesmo. Certas emoções só sentimos quando chega o tão esperado primeiro dia de aula. E a gente sobrevive, viu?



Natália de Andrade