02 julho, 2013
Sábado de sol
Finalmente chega sábado e até então, meu plano é curtir um belo dia de sol com as amigas. Chega sábado e eu levanto meio adormecida rumo ao banheiro para poder despertar. Finalmente chega sábado, arrumo as coisas e lá vou eu...
Curtir o dia, me divertir, refrescar a mente, encher meu cabelo de areia, tomar milhões de caixotes e levantar pra ver o sol raiar. Sábado, Rio de Janeiro, um calor brabo e uma praia cheia a ponto de que você diga: "O Rio de Janeiro continua lindo!"
Em partes, ok? Porque se você esfregar os olhos e arregalá-los, não verás tanta beleza assim. É fácil pensarmos em nós mesmos, olhar as coisas como parecem. Difícil é agir como deveria, preocupar-se com o próximo, aceitar as coisas como são. Aí está a diferença!
Enquanto eu curtia o meu dia animado, comendo, bebendo, rindo e mergulhando, havia um garotinho com menos da metade da minha idade vendendo biscoito debaixo daquele sol que eu mesma curtia. Enquanto eu comia, bebia, ria e mergulhava, aquele mesmo garotinho caminhava pela praia, não por opção, mas por obrigação da vida. Até que chegou a um determinado momento em que seu corpo pediu "Stop" e ele sentou-se numa cadeira vazia que, provavelmente, eram de pessoas que deveriam estar se divertindo, comendo, bebendo, rindo e mergulhando.
Ao ouvir dizer que tinha um garotinho cansado e que estavam dando água para ele se hidratar, de imediato tia Dora levantou-se com refrigerante e biscoito e fez questão de ver como ele estava. Mas pela sua demora, decidi levantar e vê-lo também e foi então que, o tempo resolveu parar e eu só conseguia focar naquele pingo de gente sentado, cansado e aparentemente, fraco. Enquanto o sol brilhava para todos, a única coisa que brilhava para mim e tia Dora eram aqueles olhinhos ao comer e falar do mar. 7 anos e magrinho...
Tia Dora disse que seu lugar era brincando e não ali trabalhando. E eu me perguntei porque ele não estava brincando no mar como qualquer outra criança dali. E percebi que a vida também é injusta e que o plano feito para a Terra deve ter sido dividido de maneira incorreta. Enquanto poucos tem muito, muitos tem pouco ou quase nada ou até mesmo nada.
E foram naqueles 15 ou 20 minutos conversando com ele que eu ganhei o meu dia. Agradecendo à Deus por existir pessoas como a tia Dora que foi capaz de fazer a diferença, enquanto a praia inteira se divertia.
Depois de voltarmos aos nossos lugares e nos sentarmos, ele permaneceu onde estava, olhando o mar e eu fui escutar música, observando-o de longe. Alguns minutos se passaram e ele levantou-se com a garrafinha de dinheiro nas mãos, o saco enorme de biscoito nas costas e continuou a caminhar. Enquanto o via indo embora, o sol continuava a brilhar, mas só conseguia enxergar aquele sorriso banguelo com os lábios machucados, as costas queimadas de cigarro e aquele brilho nos olhos... e como brilhavam!
Natália Andrade


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