23 março, 2015

TEMPO FECHADO



Que mania de olhar pro céu e procurar respostas... 
Como se as nuvens fossem formar palavras. Como se os pássaros fossem cantarolar conselhos. Como se o vento fosse sussurrar o que fazer. Tudo branco, tudo cinza. Dessa vez, olho pro céu e não vejo nada de extraordinário. Só uma névoazinha bem longe, ofuscando a minha visão e que a qualquer momento pode estar aqui, bem a frente do meu nariz. Eu sei que o tempo está fechado e que aqui dentro também, mas estou torcendo pro sol surgir e a peito se abrir!

Natália de Andrade

14 março, 2015

HOJE SÓ QUERO SER



Andei pensando em como tenho dificuldades em fechar ciclos. Colocar um ponto final. Um remate. Aquele The End na história... Às vezes o final nem foi feliz, pô! É sério, essa ideia de desapego me soa estranho. Embora seja tão necessário quanto dormir. E imagino que estejam pensando: "Nossa! Que péssima analogia!", mas acredite, o desapego nos traz noites maravilhosas de sono. Recuperamos aquelas horinhas perdidas quando não conseguimos dormir, por revirarmos e revirarmos na cama com o pensamento bem longe, sabe?

Uma reticência sempre me caiu bem...
Aquilo que ficou por dizer...
E que acabou pairando no ar...
Vírgulas que me ajudam a respirar em textos, a pensar na construção da próxima frase, a organizar pensamentos, a dispô-los no papel.
Esforço-me para que o ponto final seja usado corretamente. Afinal, é só encerrar frases, não é mesmo? Ainda que pela metade, desde que faça sentido para mim.

É muita bravura dar um basta e dizer que acabou. E ver que não existe mais nada. E que aquilo não voltará para a sua vida. E é com isso que você vai lutar todos os dias. Repetindo mil vezes que é para frente que se anda e que não pode e nem deve olhar para trás. É você versus você mesma. Lutando contra as suas próprias vontades, só para sair imune desses caminhos que só andam em círculos e te deixam tonta. Porque você sabe de cor e salteado para onde que ele vai te levar. E pensa que vai ser diferente, quando acaba tudo sempre igual. Exceto o tempo que também engana e finge parar na mesma medida em que dispara, corre, voa e quando a gente percebe nem se reconhece mais. Saio do papel para a realidade bem infinitiva, sem nenhuma conjugação. Já fui passado, presente e futuro. Hoje só quero ser (acompanhada ou não).

Natália de Andrade

25 fevereiro, 2015

PRIMEIRO DIA DE AULA



 Ansiedade. Nervosismo. Vergonha. As vezes até choro. Nada como essa mistura de sentimentos a cada ano letivo que inicia. Pude perceber nos últimos dias como os hábitos são comuns a professores e alunos. Digo isso por experiência própria, pois todos nós passamos por essa cena: de não saber o que nos espera no nosso dramático e esperado primeiro dia de aula. E olha que ela se repete inúmeras vezes, embora todas elas sejam diferentes.

 Fui uma mera observadora desta vez. Na última reunião com o diretor pedagógico do colégio onde trabalho, um dia antes de voltar as aulas, pude perceber o quanto professores se tornam alunos por alguns instantes. Sim, depois das férias merecidas é a hora do reencontro com os colegas de trabalho. Aquela confusão de vozes crescia gradativamente junto às risadas e as rodinhas que se formavam naquele espaço. Professores antigos enturmados, logo nota-se quem são os novatos da área: os que beiravam aos cantos. Não é assim que acontece conosco quando entramos num colégio novo ou quando retornamos das férias? 

 No dia seguinte, ainda como mera observadora, estava com a turminha que acompanhei ano passado como auxiliar (terei o prazer de acompanhá-los novamente) e qualquer semelhança, é mera coincidência. Todos quietinhos e atentos ao esperado dia até que se dá início aquela apresentação formal chata de sempre. Eu, particularmente, odiava e continuo odiando, morro de vergonha. Observo o olhar de cada um quando se apresentam e pela voz baixinha, vejo que sentem o mesmo e automaticamente, me vejo ali – como se eu não tivesse me apresentado formalmente para o resto da equipe de professores há um dia, mais uma vez, vergonha. 

 Depois as vozes ecoavam baixinhas pela sala e só pelo modo como sentaram, percebo os novos alunos - não estou dizendo que eu não conheça os rostos dos meus pimpolhos, mas quando estão juntinhos é sinal de que já se conhecem, isso é óbvio - e aqueles com o semblante envergonhado, sem graça, que tem boca, mas não fala, são os que a gente deve transmitir sorrisos o tempo inteiro para familiarizá-los e aconchegá-los. 

 Tudo exatamente igual! Quando entrei na escola pela primeira vez como aluna e para trabalhar. Quando retornava as aulas depois das férias até concluir o meu fundamental. Quando entrei num colégio novo para fazer o meu ensino médio. E a cada período novo que se inicia na faculdade... Nem eu sabia o que esperar e vivia ansiosa também. Vivo e sou! 

 De espectadora aos palcos ou as carteiras ou as lembranças, principalmente daquelas que marcam mais, como cair de pára-quedas num ambiente novo, os amigos de escola, o rostinho de cada professor gravado em nosso pensamento e nossas primeiras impressões de tudo até chegarmos à faculdade e percebermos que nada mudou. Enfim, professores retornando a seus papéis de alunos e estes, por sua vez, sendo alunos mesmo. Certas emoções só sentimos quando chega o tão esperado primeiro dia de aula. E a gente sobrevive, viu?



Natália de Andrade

07 janeiro, 2015

Tudo novo de novo!



Há inúmeras datas durante o ano em que eu me renovo como ser humano: na alegria do carnaval, na comunhão com Cristo durante a Páscoa (ou quando vou a igreja num dia qualquer), em cada dia das mães e dos pais, pois sei que estão sempre me transformando no melhor que eu posso ser, quando o outono se inicia (porque o outono é sim a estação da alma e a minha preferida), no dia da minha padroeira do coração que, cai no dia das comemorações dos seres mais puros desse mundo - até crescerem –, e no dia 10 de novembro, meu aniversário, seguindo a ordem cronológica.
Mas nada se compara a magia do Natal e a ansiedade pelo novo ano que iniciará. Aquele sentimento de querer reunir a família só para ter o prazer de ouvir a confusão de vozes ecoando pela sala, cozinha, no portão de casa... Só pelo prazer de escutar as risadas e compartilhar delas (que saudade disso!). Meu coração engrandece e sinto que Deus conversa comigo. Então, peço para que ampare todas as famílias do universo, inclusive a minha. 
Aquela época que eu tenho vontade de transformar o mundo de uma vez por todas e espalhar somente amor. Aquela ansiedade de mudar, renovar (e inovar), re(inventar)... Aquela chama de esperança dizendo que a mudança está chegando e que já dá para ver da janela, ela vindo bater na porta e estourar no céu. Você pisca e tchum: já são meia noite, veja só! Tudo exatamente igual, menos o brilho do olhar. Ano novo, vida nova. Tudo novo de novo!!!

(Natália de Andrade)

19 maio, 2014

Inquietação de um amor


Depois de muito discordar, finalmente entendi o sentido de uma frase. E mais, constatei que o meu escritor preferido tem razão em suas palavras: "Antes a inquietação de um amor, do que a paz de um coração vazio." Caio Fernando de Abreu está completamente certo disso e eu ainda hesitei.  Sempre me questionei dos motivos que alguém teria para preferir se agarrar a uma ilusão, a uma incerteza, de ter que controlar seu coração quando fica a mil ao deparar-se com a imagem de certo alguém. O amor é lindo, sim. Mas quando ele é amor, de fato. A gente nunca sabe quando se tornou desamor e transformamos em beleza a dor. Até o sofrimento é saboroso nessas horas. Até as lágrimas adocicam nossos lábios. 
Sempre achei absurda essa judiação com os corações tão inocentes, até que nunca mais produzi um texto sequer. Até que me vi vazia. Livre. Solta. Eu poderia voar por não me sentir mais presa. Ouvir teu nome e não precisar engolir seco. Poderia até te encontrar na rua que te cumprimentaria como um conhecido qualquer, porque foi isso que você se tornou, né? Só mais um conhecido...
Então, percebi o quão nossas quedas nos levantam e nos sustentam os pés. O quão importante os desamores são para fortificar as estruturas dos nossos corações. E o quão as batidas dele nos tornam vivos. Que mais vale ter o coração saindo pela boca do que ele parado e sem entusiasmo. Tanta gente lutando para reanimá-lo e eu reclamando dele ficar acelerado.


Natália de Andrade

11 maio, 2014

Bem de longe


 Percebi que consigo ser feliz sem você e não é esforço algum. É natural, sem precisar forçar nada como muita gente faz. Assim como você, que já provou o quanto eu faço bem, bem longe. Mas foram aqueles muitos momentos de "cão e gato" que me mostrou tudo o que eu já quis sentir por alguém. Que somos bons juntos e podemos ser felizes também!

Natália de Andrade

03 maio, 2014

Cardíaca


Sou cardíaca sim, sofro do coração. E a maior prova disso é de que não tenho nenhum controle sobre ele quando começa a saltitar loucamente com a sua presença e sem a minha permissão. Nem me arrisco a dizer quantos batimentos por minutos consigo registrar, perdi as contas ao avistar você, o motivo dessas acelerações desgovernadas que faltam trazer a boca, o coração. Só por pensar em você, ouvir seu nome, achar alguém com a feição parecida com a sua na rua ou apenas te encontrar em meus sonhos, já que existe um muro de Berlim invisível que nos separam. Você. Só você. Como é que pode? Ter esse poder todo que me foge das mãos? Onde é que encontra a razão, se o coração já se perdeu?

 Natália de Andrade