O tempo passa e vai distanciando
cada vez mais certas coisas. Ela sempre teve muito medo de se encontrar perdida
nele. De perdê-lo. De se perderem, enfim. Sempre fez de tudo para que se mantivessem
próximos. Procurou se manter presente e a cuidá-lo. Nunca soube como faria
isso, mas tentava de alguma forma e sua amizade foi a maior prova disso. Suas
preocupações e carinhos eram jeitos que encontrava de dizer o quanto ele era
importante – nunca ouviu. Antes não tivesse feito nada. Não tivesse se doado
tanto. Falava com as paredes, com o vento, talvez fosse mais útil assim.
Conheceu uma pessoa que
não sabia se conhecia, então. E ainda hoje se pergunta: “Afinal, quem é você?”.
Não sabe. Nunca soube. Ele nunca mostrou quem realmente era, enquanto ela foi
completamente transparente. Tem ideia do que isso significa? Se desarmar
perante um desconhecido? Deixou-lhe conhecê-la por inteiro para não conhecer nem
a sua metade. Foi sincera em cada palavra que saía de sua boca – mesmo que
perdidas – para só ouvir mentiras da dele. Confiava muito mais do que
desconfiava, sempre deixou claro. Deu-lhe inúmeras chances de ser quem era, no
entanto, não foi. Deu-lhe os dados do jogo, mas ele só trapaceou. Nunca
entendeu sua linha de raciocínio e estava atenta para entendê-la. Podia jurar
de pés juntos que o conhecia e que seu olhar brilhava. Vai ver, ela era o
próprio brilho que refletia daqueles olhos vazios. Vai ver, a luz só era dela naquela
profunda escuridão.
Natália de Andrade


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